“Sempre acreditei em um teatro que se comunica com a plateia do seu tempo, tentando entender o que mudou numa sociedade e o que nos perseguirá como humanos para toda a eternidade; a plateia, essa que hoje está acostumada com várias mídias e com acesso ilimitado a uma grande quantidade de informação e de possibilidades de comunicação. Por isso venho desenvolvendo um teatro não ingênuo que trabalha com todas as possibilidade que só o teatro pode ter. O teatro deve ser uma tentativa, ficcional ou não, de reaproximação com esse público, sem sermos ingênuos e usando todos os recursos que o teatro e as mídias modernas nos permitem usar. Afinal diferente das outras mídias de apelo mais fácil e de maior abrangência, como o cinema e a televisão, só o teatro é capaz de proporcionar a experiência única da obra viva. Ele está acontecendo ali, diante dos olhos da plateia que terá o poder de editar e entender o espetáculo da forma que se permitir. Por isso, o teatro não pode ser uma imitação barata da televisão. Teatro não é cinema. Seus temas devem desassossegar o homem, fazê-lo despertar da letargia diária que o cotidiano provoca. Deve ser festa, acendendo luzes no final do túnel, ou tornando o escuro insuportável. Tentando reestabelecer o teatro popular como, segundo Roland Barthes, festa e conhecimento, desenlace solene do tempo laborioso e incêndio das consciências.

   Há muito tempo abandonei a visão apolínea da peça bem feita, me tornando o contrário da síntese, fazendo um teatro lotado de referências, signos e que tenta dar a plateia o benefício da escolha. Música, sons, vídeos, imagens ao vivo, texto corrosivo tudo acontecendo ao mesmo tempo como estamos tão acostumados hoje em dia. Afinal se o teatro deve ser uma lente de aumento sobre a vida, meu teatro será sujo e desarrumado, como a vida, caótico e cheio de informações, um caleidoscópio das muitas versões para muitos fatos. O uso do “aparato cênico” que tenho utilizado em meus últimos espetáculos sempre teve como objetivo e desejo, revelar ao público os mecanismos do jogo teatral, como se pudéssemos dissecar não só as almas da cena e as relações entre os personagens, mas os diversos pontos de vista que podemos ter quando enxergamos o avesso, os bastidores, dos acontecimentos. Mostrar a mágica e o truque da mágica ao mesmo tempo, deixando que o truque seja também mágica.“

 

Nelson Baskerville

 

 

 

 

Para poder aprofundar sua pesquisa no ano de 2014 Baskerville retoma os trabalhos da AntiKatártiKa Teatral (AKK). Criada em 2004 por Baskerville e seus ex-alunos do Teatro Célia Helena, Flavia Lorenzi, Felipe Schermann e  Anna Cecília Junqueira, a AntiKatártiKa Teatral (AKK) procurava as manifestações épicas em textos ainda enquadrados no gênero dramático, além de proporcionar o intercâmbio de experiências entre atores jovens, e profissionais experientes como: José Ferro, Adilson Azevedo, Luciana Azevedo, Marcos Ferraz, Ondina Castilho e Marichilene Artisevskis. A AntiKatártiKa trabalhou até 2008 e produziu dois espetáculos: “17X Nelson Parte I - O Inferno de Todos Nós” de Nelson Rodrigues e “Camino Real” de Tennessee Williams. Nelson, de certa forma, continuou sua pesquisa nas companhias que vieram depois, na Mungunzá, que criou junto com dois dos atuais componentes, Mamba e Provisório Definitivo, imprimindo fortemente seu pensamento criador no estudo das formas épicas, derivando para o teatro documentário, inspirando-se em grandes criadores como Piscator, Gordon Craig, Tadeuz Kantor e mais recentemente Thomas Ostermeier, Castorf e no Theatre du Soleil. A AntiKatártiKa desde cedo teve no DNA um teatro forte e reflexivo que tenta, através da linguagem polifônica, entender o mundo atual e a importância do teatro, como manifestação cultural de uma sociedade como a nossa. O retorno se dá de forma muito significativa, pois ele começou a ser esboçado no ano de 2012 com a estreia da peça “17X Nelson Parte II – Se Não É Amor, Não É Eterno”, versão da primeira peça que dirigiu com a AntiKatártiKa, na qual se estabeleceu uma nova configuração, tendo Baskerville (diretor) e Marichilene (figurinista), membros desde a formação e Amanda Vieira (cenógrafa) e Thais Medeiros (atriz) como atual formação.